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26/03/2012 - Segundo dia de subida. Tem alguns Israelenses bem mal, tossindo muito, acho que é por causa da quantidade que fumam. Hoje precisamos encarar mais 17 km de subida, acho que não vão chegar. Deve ter um plano B, mas como sei que não vou desistir, então não quis nem saber.

As montanhas em redor são pura neve, visão fantástica, fotos ainda melhores. Tem uma árvore aqui que dá umas flores grandes e vermelhas, realmente bonitas e tornam o ambiente ainda mais belo. De animais não vimos nada, antes de subir tinham macacos, mas isso não é novidade, já que na Índia o que tem são macacos e os indianos tem todo carinho por eles, apesar de que, essa devoção como já mencionei antes, é em função de Hanuman, uma encarnação do poderoso deus Shiva, daí existem em toda parte, templos dedicados a Hanuman e consequentemente, é dedicado aos macacos.

Engraçado que, de alguma forma, começo a compreender a relação de divindade que existe, mas é claro, é só uma percepção minha já que não estudei o assunto a fundo. Os gurus, por exemplo, eles em vida, são venerados e quando morrem, pela própria fé dos Hindus, onde os espíritos continuam, alguns reencarnam, outros continuam no espiritual, eles passam a adorar esses gurus, construindo templos fazendo imagens, de maneira que a presença dos gurus que adoravam em vida, continuem presentes com eles e com os seus descendentes. Segundo que houvi as escrituras completas da fé Hindu, somaria mais de 2.000 livros, ou seja, seria necessária uma vida inteira dedicada só para ler as "escrituras sagradas" deles.

Mas a dedicação mesmo é a Shiva, Ganesha, Hanuman, Ganga, desses se vê lugares (casinhas) para pujas (oferendas). Durante as oferendas eles tocam um instrumento com som de buzina e ao mesmo tempo, batem em metais, ou sinos, o que dá um som semelhante ao de uma locomotiva chegando, aliado a esses sons, são entoados mantras de adoração, algo semelhante a uma novena católica, bem inspirador. Fico observando e acho bonita a forma como adoram suas divindades, que são tantas que eu acho que nem eles sabem ou compreendem, quantos são. Essas divindades classificadas entre espíritos elevados, deuses, etc., os Hindus vivem a fé deles, no mais próprio estilo, “Viva e deixe viver. Adore e deixe adorar”.

Agora tem umas mulheres colhendo folhas em arvores, aqui ao redor, são dezenas e elas fazem a maior gritaria, sobem alto nas árvores, munidas de cordas e foice, sári, lenços na cabeça que objetivam oferecer proteção para o sol e não esconder o rosto, já que na religião hindu não tem esse aspecto de esconder o rosto, mas também não são de olhar para os outros, não que não olhem, mas se mantém a distância. Nas cidades adoram tirar fotos com turistas, se permitidos ficam doidinhas, a gente quase se sente um astro.

Perguntei porque são as mulheres que fazem, esse serviço de subir nas arvores e coletar folhas e galhos, o rapaz me explicou que nessa região são elas que fazem isso, depois fazem feches e levam para casa, cuidam das crianças e a tarde vão para as lavouras e as vezes os homens vão junto para a lavoura. Perguntei o que eles ficam fazendo e ele disse que ficam em casa jogando jogos, etc. Caracas! Conseguir uma mulher aqui é a glória, pois ela faz o serviço, providenciam a comida, cuidam das crianças, da lavoura, da casa... O homem só precisa conseguir uma para fazer tudo.

Iniciamos a subida, antes o guia pediu se todos estavam certos de querer fazer os 17 km, todos confirmados e a andança começa. Muita subida, a cada parada belíssimas paisagens para fotografar e apreciar.

Saímos de 2.200 metros e agora que atingimos 2.600 metros e começamos a ver neve pelo caminho, não na trilha, pois o guia procura evitar por que alguns não estão com equipamentos adequados para o gelo. A cada momento que subimos mais neve e mais belas paisagens. Como mantenho um ritmo vagaroso, mas constante, coisa aprendida com Pedrinho em outras trilhas, lentamente vou ficando no grupo da frente, sem muito cansaço, mas as pernas começam a doer um pouco. Meu tênis da Timberland está sendo inaugurado na trilha e começa a causar algumas dores, mas dou umas respiradas e tudo bem.

Paramos numa bela cachoeira, mas pense numa água fria, mas também, a algumas horas era gelo! Engraçado como, apesar de conversar, entender e compreender tudo sobre a caminhada, tem algumas coisas neste trekking que não tinham sido entendidas por mim, mas nada sério, só que se eu não tivesse  exagerado no preparo de tudo, agora aos 3.400 metros de altura, eu teria sérios problemas, pois o frio tá pegando forte e para piorar, uma garoa(chuva fina) está caindo e estou só tirando casaco da mochila, apesar de que a própria caminhada, subindo constantemente, dá um calor danado.

3.600 metros e o gelo só aumentando e tem trechos que caminhamos na neve, ou gelo. O cuidado precisa ser redobrado, pois uma queda neste lugar seria um problema sério. Chegada 3.800, 17 km percorridos, meio molhados. Na chegada, todos comemoram assim que cada um dos caminhantes termina a jornada. O último do grupo chega uns 45 minutos depois. Todos vitoriosos, mas tem uns quase entrando em colapso.

Chegando no hotel, que fica logo a frente, avisam que tem banho, só um topa o desafio, água quente, mas como sair depois? Uma moça israelense fica com hipotermia e é levada, às pressas, para um hospital que fica a 35 km daqui.  A moça está gritando de frio, tem vômitos constantes, meio desesperador, mas o que fazer?

Agora deve estar uns 2 graus, perto do fogo até está tranquilo. Os quartos ficam um pouco mais abaixo, de frente para o vale e com o vento soprando, a sensação térmica fica ainda mais difícil.

Bem, quando se procura fazer coisas diferentes, as vezes somos pegos de surpresa, entre o que achamos que era e o que foi. Mas garanto que valeu a pena cada passo. Aliais quem faz trekking, sabe que é assim mesmo, mas o frio era um pouco acima do previsto, segundo o guia, teria acontecido por causa da garoa imprevista e acredita, que na trilha, chegou a zero grau.

Amanhã tem outra caminhada, que agora informaram que seria de 3 km, até chegarmos a 4.000 metros. Tem uma placa por lá onde consta a altura, já que vi nas fotos da propaganda da empresa.

Elton Iappe
Puchcar - Índia